Carta Pastoral da Quaresma

 RENOVAR É PRECISO

Estamos na Quaresma, tempo de penitência, tempo de arrependimento, tempo de perdão e tempo de reconciliação. Neste período que tem sua culminância na Páscoa, nos preparamos caminhando com Jesus, identificando-nos com a sua mensagem e com a sua experiência na vitória contra o mal. É na quaresma que buscamos a renovação de nossa relação com o Pai Eterno, com seus dons e com a sua missão.

Neste tempo nos encontramos a pensar sobre a nossa condição enquanto servos e servas do Reino. Questionamo-nos, se temos vivido da maneira condizente ao que fomos chamados e chamadas, se em nossa caminhada temos demonstrado o cuidado em direcionar nossas ações dando o nosso melhor na missão a nós confiada.

Gostaria de pensar que não nos acomodamos e ficamos parados esperando que as coisas aconteçam, sem que façamos algo para tal, ou, ficamos esperando que algum resultado diferente aconteça, mas continuamos fazendo tudo da mesma maneira.Temos uma missão a realizar; Qual tem sido a nossa disposição e o nosso comprometimento no cumprimento da mesma?

Há algum tempo, li um artigo que me chamou muito a atenção, falava de um caso que aconteceu em Cuba, quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos.

Esta história fala da necessidade que o presidente William Mac Kinlei tinha de se comunicar urgentemente com o chefe dos insurretos, o general Calixto Garcia Íniguez, que estava em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sua localização era incerta. Através do correio ou do telégrafo, era impossível uma comunicação, mas o presidente precisava contar com a sua colaboração o mais breve possível. O que fazer?

Alguém lembrou ao presidente: “Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan”.

O tenente Rowan foi trazido á presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entrega-la a Garcia. Ele tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito, e após quatro dias saltou de um pequeno barco, alta noite, nas costas de Cuba, embrenhou-se no sertão, e depois de três semanas, surgiu do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé uma região hostil e entregado a carta a Garcia. De como ele cumpriu esta missão, não é importante neste momento e sim, que o presidente deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; este pegou a carta e nem se quer perguntou; “Onde é que ele se encontra”? Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e sua estátua colocada em todos os lugares como exemplo. Não é apenas de aprender nos livros que nossos jovens e nós mesmos precisamos nem de instruções sobre isto ou aquilo.

Precisamos, sim, de temperar os nervos, ser leal, atuar com rapidez, concentrar as energias, fazer o que se deve para dar conta do recado; para em suma cumprir com os nossos objetivos (levar uma carta a Garcia). Evidentemente o general Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias. O que mais me chamou a atenção neste conto foi a intrepidez de um homem e sua disposição em superar todos os obstáculos para realizar a tarefa que lhe foi confiada.

Através deste exemplo podemos perceber que para se executar algum projeto, é necessário que as pessoas envolvidas tenham a consciência de que devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance, superando todas as dificuldades que possam surgir. Neste sentido, nos lembramos do conceito estabelecido no evangelho, da necessidade de se andar a segunda milha. Quando pensamos em nossas responsabilidades, nos compromissos que assumimos ao nos tornarmos membros de uma comunidade, ou nas promessas de ordenação, nos questionamos se realmente temos sido fieis.

É próprio do ser humano sentir-se desanimado muitas vezes, é natural que em determinados momentos as coisas pareçam estar estagnadas e não vemos muita perspectiva de um futuro melhor. É justamente neste momento que precisamos analisar onde temos focado nossas ações, ou ainda, como temos administrado nosso tempo. É praticamente impossível em tempo de Quaresma não pensarmos em nossa vida espiritual, em nossa relação com o Eterno.

Então, diante de todas as preocupações que temos, de todas as nossas ocupações, de todos os acontecimentos, atividades e relações que envolvem as nossas vidas, percebemos que a resposta que o senhor Jesus tem para cada um de nós, é que nos desviemos do nosso centro de gravidade, que “re centremos” a nossa atenção e que modifiquemos as nossas prioridades. Isto não significa que devemos abandonar as nossas atividades e nossas responsabilidades neste mundo multifacetado; não é esta a vontade do Senhor Jesus para nós.

Ele nos faz uma proposta de mudança de coração, ou seja, “que busquemos em primeiro lugar o seu Reino e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado”. O nosso coração precisa estar centrado em Jesus e na missão que ele nos confiou, e para que isso aconteça, precisamos urgentemente priorizar a vida do Espírito de Deus em nós, ou seja, Voltar os nossos corações para o Reino, fazer da vida no Espírito, dentro de nós e entre nós, o centro de tudo o que pensamos, dizemos ou fazemos.

Um fato maravilhoso em nossas vidas, é que nos tornamos filhos e filhas de Deus, assim como Jesus era filho, portanto, as nossas vidas se tornaram uma continuação da missão de Jesus. Creio que a maneira que temos para sermos exitosos em nossa caminhada como discípulos e discípulas do Senhor, é permitirmos que o Espírito Santo que está em nós, nos inspire a estarmos sempre na presença de Deus, ouvindo a sua vós mesmo quando estamos envolvidos em inúmeras preocupações.

Além de despertarmos para essa relação mais íntima com Deus, precisamos buscar uma convivência mais integrada com as outras pessoas, percebendo que juntos poderemos criar novos espaços para a ação de Deus em nós e nas nossas comunidades. Que tenhamos um tempo de Quaresma em que possamos renovar nossos ânimos e o nosso propósito de seguimento de Jesus.

No amor de Cristo,


+Filadelfo


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